28/03/2014
GAZA
"A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado."
José Saramago
Fonte:
http://caderno.josesaramago.org/2008/12/?page=2
26/12/2013
ABADE
O Sol frondeia, d'água fria, a areia,
Ao ir do dia, frondescendo a beira
Umedecida pela afronta à cheia
À espreita em vales sob a cachoeira,
A impondo formas cuja luz frondeia
E cuja frondescência é uma fronteira,
A da beleza da palmeira e a forma
Amorfa, o caos concreto, a abstrata norma,
Enfim, aquilo etéreo e o que se toca.
A obra dele é mesmo assim: a boca
Autora, outrora, de abstração, sufoca-a
Às águas frígidas e tal voz louca
Em línguas híbridas parola, aloca,
Em metafisicista fala rouca,
A cor mestiça intrínseca do misto
Entre a matéria e a ideia. Mas persisto
Ao Sol, de fronte à fronde que formara,
Ali, da luz banhando-se na praia.
Adorna suas formas de tez clara
Amorenada em marcas do que raia
– O Sol, que para para ver a rara
Aparição e nela ele desmaia.
É só que, todavia, em ida, vinha
E vinda a vívida visão de minha
Afronta a minha mente inconsciente
– Em um suspiro audaz toma por leme
Ideias que só entende, mas não sente
E imagem que entre cujas curvas treme.
Àquela aparição, corre tão rente
O ser e o nada... De repente, "lê-me"
Ordena, como a esfinge, e sua fala
Ébria e calada finge que se abala
Ao toque de meus olhos e se cobre.
O Sol colore as suas costas, sobe
Em sua tez canela a cor de cobre
E erode-me. Eu a toco antes que a improbe
Ou descontrole por completo, ou dobre
- Em meus sentidos - o sentido, englobe
O entílico prazer à lisergia
E flores ressequidas. A queria.
18/05/2013
AGNUS DEI
I
Quando eu me perco no pampa a perder
Quando eu me perco no pampa a perder
De
vista, se como fosse o oceano,
Eu
encontro a mim mesmo e que prazer
Em
conhecê-lo, mas... um cordeiro? Ao plano
Sem
fim, pois sem princípio, tem quê
De,
não se sabe, majestade – arcano,
Mas,
qual tantos, pastando. E esse é o início
Da
estória. Que importa? É um ciclo, fictícios
Os
pontos de partida – minha vida
Começa
em... desconhece-se e termina
Nunca.
Nenhuma linha foi partida,
Por
na chegada. Haverá uma outra sina
Além
do vai e vém, a despedida
Depois
da vinda? Ilusão, menina!
Aqui,
no campo, de tão manso, é estranho,
Mesmo
que igual qualquer um destes anhos.
O
instante em que, não sei como, me afobo
Diante
daqueles olhos, olho torto,
Afoito
– não sou probo. Mas prum lobo
Faminto,
se há motivo a desconforto,
É,
dentro do bucho, o vazio e o bobo
É
o prato. Suporto: o cordeiro está morto.
E
então co’o cortejo fúnebre – abutres,
O
tecelão desse desfecho nutre,
No
urdume, a teia que ao se entrelaçar
Depois
das fiandeiras cada linha
Urdirem
sina certa no tear.
E
é que um daqueles fios é a minha
Vida
e todo o tecido, num tafetá
Descontínuo, o infinito. Por que tinha
O
Demiurgo de tecer inteiro
O
mundo no infortúnio do cordeiro?
II
Plano
que nem o pampa não há campo!
Extenso,
é o oceano – beira a borda
Do
mundo. E o vento minuano... Tampo
Os
olhos e inda vejo quando aborda as
Ovelhas,
as assopra, faz relampos
Delas,
que são as nuvens no céu, horda
De
espumas nas ondas do mar. E via
Tudo
isso com o olhos fechados, dia
Na
noite abaixo da pálpebra – o pampa
Está
dentro de mim. Armada, a tenda,
Na
em que eu acampo, é o céu aberto – tampa-
Me
co’o sereno; a grama é cama e, lendas,
Meu
refugio do mundo e é ele que acampa
No
reflexo em meus olhos, porque os venda.
Sou
eu quem o cubro a cada piscada
E
a garoa são lágrimas que nada
Estará
se la eu não estiver
Para
testemunhar, às vezes, só
Ter
fé – a estrela que brilha e sequer
Esta
viva a será; do pó ao pó
Se
for assim que alguém qualquer quiser,
Mesmo
se um sol ainda ela é. Que dó
Do
cordeiro! Morreu pra dar sustento,
Forma
a fôrma do que foi pensamento
Do
homem tecendo – é o centro do desenho
Que
ele urde num tecido ou é o objeto
Do
sacrifício, o anho, esse centro? Empenho
Em
morrer-se, de carneiro, quieto
Ou,
sorrateiro, o cão que o põe no lenho –
Qual
é mais empenho? Aqui, sob o teto,
Paredes,
sombras formam e toda a história
Me
contam, perder-se nela, ilusória,
III
Grilhões
– nos põem e mantêm à caverna,
Ensinam
o signo a qual corresponde
A
coisa e a causa a qual é subalterna.
E
o olho me leva tão longe, por onde
O
corpo não pôde. Eu, por minhas pernas,
Sou meus sentidos. Só cinco? Um se esconde
Por
de trás delas, as sombras, no verde
A
perder-se de vista em que se perde
A
luz que as projeta e é quem me conduz,
Daquelas,
a essa, pois tudo flui –
Me
jogou aqui dentro, à minha cruz
(O
espaço e o tempo), a correnteza, mui
À
espreita de quem não teima e me abduz –
Fora
o enredo do cordeiro quem fui
Não
sei e mais além da lei de panta
Rei,
plantarei, aqui em baixo, uma planta
Pra
ver se escalo por seus trinta e dois
Caminhos
até o alto e, então, escapo
Deste
ciclo, mesmo que, depois
De
ter os percorrido, esteja aos trapos.
Perguntarei
a quem encontrar : “sois
Quem
e quem foi que, fiapo a fiapo,
De
um cordeiro me manteve, ali, preso?”
E
verei que estou errado e que o peso
Das
correntes arrastam-me à baixo,
Que
é igual lá em cima. Não é pessimismo,
Mas
quem vi era o mesmo que mim, acho
Que
posso ter sido o assassino, cismo
Ter
tecido, à lembrança, o pampa; fachos
De
luz que alcançaram eu, aqui, no abismo
Recado
a si mesmo de um tecelão
Esquecido,
lembrando: tudo é em vão.
15/03/2013
IMPERMANÊNCIA
Nada se perde, tudo se transforma. Não só o cientista,
também o religioso nos ensina: a essência das cousas é imortal. Mesmo o platônico
e, por conseguinte, de novo, o padre afirmam: por de trás deste, há um mundo de
ideias e, dele, somos apenas reflexo. Como no rosto projetado na água, o que
está em cima está em baixo e, se Narciso se afasta, o rosto continua, só o
reflexo que não. Este é um mundo de ilusões, Igreja e Academia concordam: a
morte é só mais uma.
Ao mesmo tempo em que nos alertam dessa farsa, ordenam-nos
ao desapego, tanto a religião quanto Schopenhauer, para evitar-se às dores do
mundo, cuja a raiz repousa no desejo – desejo pela permanência do que é bom,
família e amigos, juventude, mas tudo se acaba.
Ora, se falam em imortalidade, como, ao mesmo tempo,
condicionam-nos a levar a vida de um monge, a fim de que não desejemos e, assim,
não nos deparemos com a finidade? A impermanência assumem como ilusão e, mesmo
assim, tem-na como um de seus dogmas budistas, judeu-cristãos, os yuppies do
new age. Dicotômico.
A contradição, todavia, está na exposição de motivos, e não
nessa lei em si. O
plano terreno é como uma droga e, pelo desapego, damos os primeiros passos para
escapar à adição. É como um café pra curar a cachaça – mas uma droga para
contrabalancear a outra, nem de longe, confunde-se à sobriedade.
O universo é um, não a diferença entre nós e o Sol, todo
homem e toda mulher é uma estrela. Somos os nódulos na gelatina, uns maiores,
outros pequenos. O mundo é uma só massa, contínua – cada átomo, bicho, astro e
pedaço de pedra não passa de um redemoinho num mesmo oceano (palavras de
Vivekananda) – somos a mesma substância, assumindo formatos diferentes. As
formas mudam, e a substância permanece. Tudo que amei e se foi, parentes, paisagens
que não estão mais lá, tudo continua e meu apego é único, a todo o universo,
porque sobriedade está em não diferenciar um número do outro, pois, a final, são
todos igualmente infinitos – eu me apeguei a unidade, e não ao que aparenta lhe
serem os pedaços. E a impermanência desses é mais uma ilusão.
13/03/2013
7 CORDAS
Sob as cordas da viola, ele
mora,
Quem chora toda vez que se, em má ora,
O amolam. Na rede ele enrola o seu
Fumo e astuto a tudo que, de Lá, vê-se,
Cobra alto em ser perturbado por desses
Que passam por lá só as vezes. Céu
Anuviado, mas o Sol, inda, a pino
E ele pita. Pausa. As cordas afino.
Mais um gole de cachaça, e prossigo.
Me ameaça – quem eu penso que sou
Para ir indo, assim, sem pedir favor
E assustá-lo? Posso esperar castigo –
E, esperando-o, nada me desconcentra,
Que ouvi dizer por aí que quem entra
Aqui sem pedir jamais voltará
A Si. Licença, dantes, não se troca
Por desculpas, agora, que é da boca
Pra fora. Me manda: "canta, até o ar
Acabar na garganta", mas não gosta
Do que canto e, rindo-se, me dá as costas.
Caio em pranto e quem me consola é o gole
– Ele o
reprova, no canto, mas como,
Entornando um garrote igual água? Tomo
Por lição de vida, "não te consoles
Com pinga", que, como se não houvesse
Amanhã, ele bebe, porque é um desses
Que o faz por que gosta, não dos que afoga à
Marafa a mágoa – ele bebe sem Dó,
Meu diabo da garrafa, ou, melhor
Das cordas sem nó, da viola, soga.
A tristeza ensina igual a alegria
E o caipira não a evita não, tia.
Esse ditado, dado, por cumprido
É tomado: vai e Fá-lo, que é da lei,
É inevitável. Um trago, que hei,
De cumpri-lo, meu rei. Se ainda lido
Mal com minha vida, meu filho, já
Está melhor do que antes, apesar
De nunca sair do meu jeito, eu pelo
Menos tento e tentando tenho causo
Pra te contar. Mesmo sem tempo, pauso
Hoje em dia, e que dias, eu, só em vê-los
Passando, me perco – e o acaso sai
Bem melhor do que eu planejo. Sem mais
Nem menos, cada astro, na sua casa
Desafina minha sina – a tarraxa
Foi quebrada. E quem tu achas que a racha?
O preto-velho carpinteiro – brasa
Do seu palheiro é lua cheia e estrela
Que clareia o mundo inteiro – de vê-las,
No céu, me lembro de que é companheiro
Nos piores momentos, e a viola,
Quando chora, é seu lamento. Compô-la
Em verso é a adoração do tropeiro.
08/03/2013
CARTA A PEDRO
Sim, Pedro, estavas
certo! Não somos mais o homem de outrora. Eu estive fora, por muito tempo e, só
agora, que voltei da ressaca de mais de mil anos, pude lançar meu olhar para o
amanhecer além deste abismo: não sou apenas eu a senti-la. Somos os últimos
filhos de Y, os primeiros no fim da História, aquele para quem, faz infinitas
dimensões, a dialética cedeu assento – depois do apocalipse, não tem mocinho
nem bandido, e as classes, em conflito, são bem mais que duas.
Reconquistamos, mesmo
que aos poucos, a amoralidade que nos foi roubada por Sócrates, pelos pais da Igreja
e, na caminhada, muitos ficam para trás, na forma de último suspiro de seus
deuses insepultos. Mesmo assim, estão perto, o suficiente, para enxergar além
da linha de chegada – daí o medo de continuar. Ao fracassarmos em todas as
nossas intentonas, deparamo-nos com o mesmo pragmatismo do inimigo, e a arma da
opressão ser a mesma do libertador soa um paradoxo tal que, na ingenuidade dos
muitos que confundem os meios com um fim, enlouquece.
Seus heróis, se não
morreram de overdose, sucederam, no trono, os vilões. Quixote, de cavaleiro,
passou-lhes ao bobo da corte (que sempre fora). Descobrimos, na utopia, nada
além de uma palavra-valise para “lugar nenhum”, que a rosa branca na boca do
fuzil é pose para a foto e nada mais. Matamos o louco, saímos do zero, deixamos
a criança de lado. Na Era de Aquário, perde-se toda a esperança para com
ela. A paz e o amor provam-se
instrumentos inúteis – é a queda do homem que, por não distinguir, da obra, a
ferramenta, causa e consequência, sacrifica o sonho, a vontade verdadeira, ao
invés de trocar o meio.
É a ressaca da fantasia
que vivemos. Acordamos e, na enxaqueca, indagamo-nos “como pude ser tão
inocente?”, apesar de continuarmos a sê-lo. Nessa dor de cabeça brotam, por
cissiparidade, duas gerações dentro de uma mesma: a dos moralistas e a dos pragmáticos.
Aquela, ainda crente em certo e errado, bem e mal, e que o primeiro prevalece
sobre o segundo, mesmo se tiver um plano melhor, atribui a erro no fim a razão
do fracasso do meio, moldando-se, sem reclamo, ao padrão que lhe exigem para
ser um dito homem de bem, ou, não pior que o conformista, crê na reviravolta,
como um hippie velho.
O pragmático, a seu
turno, não diferencia bem ou mal quanto ao meio, que, mui bem, distingue do
fim. Na luta, falhamos por que a estratégia era ingênua.
É claro, ninguém é,
tão-só e simplesmente, um desses dois ou três tipos ideais citados.
Equivoca-te, data
maxima venia, Pedro, ao resumir, na sede por expansão mental, seja pelo
misticismo ou em se debruçar sobre filosofia, indicador dessa geração
messiânica que tanto tu quanto Marcello vislumbrais. É só mais um sintoma dessa
ressaca da fantasia que sentimos.
Os moralistas, já que a
antiga falhou, buscam, em Buda ou Sartre, uma moral nova, com os mesmos fins
terapêuticos de antes. Já o homem e a mulher materialista, se se inclinam ao
estudo das mesmas searas, é com espírito científico, céticos, não cegos,
buscando a verdade e não conforto. A postura desse é desconfiar primeiro para,
caso proceda, acreditar; já aquele primeiro acredita e, depois, decepciona-se e
desacredita.
Não sei, Pedro e
Marcello, se vos equivocais também quanto ao tempo de sermos nós e agora a
geração do novo homem. Somos, dentro de uma só, duas gerações, misturadas a um
estamento inerte à evolução, em pleno dissenso, ao invés de mero dualismo. Somos
testemunhas e vivemos um começo de fim da História em que a os materialistas
tomarão as rédeas da massa de crentes na construção da alvorada. A mesma
liberdade que guiou o povo há trezentos anos vêm galopando, de novo, sobre
feras, e a cifra do homem repete-se três vezes nos motes do mesmo lema, ainda
que em gritos de guerra distintos. Eis o amanhecer do novo mundo.
07/03/2013
SONETO SERTANEJO
Na clareira aberta, a queimada, o mato
Fechado que já, antes de se queimar,
Foi a mata virgem, persiste e dá
Fruto. A casca agora é grossa a meu tato,
Doída a esse peito que é onde a mato,
Pros olhos, feio e azedo, ao paladar.
Capoeira dentro do cerrado, ar
Irrespirável e amargo é meu prato.
Lá, na clareira, de frente pra casa
Grande, à direita das cercas, debaixo
Da bananeira, atrás do canaviais
Sou uma agulha no palheiro em brasa
No meio do planalto central. Acho,
Nos cupinzeiros, relevo, eis Goiás.
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