Quando eu me perco no pampa a perder
De
vista, se como fosse o oceano,
Eu
encontro a mim mesmo e que prazer
Em
conhecê-lo, mas... um cordeiro? Ao plano
Sem
fim, pois sem princípio, tem quê
De,
não se sabe, majestade – arcano,
Mas,
qual tantos, pastando. E esse é o início
Da
estória. Que importa? É um ciclo, fictícios
Os
pontos de partida – minha vida
Começa
em... desconhece-se e termina
Nunca.
Nenhuma linha foi partida,
Por
na chegada. Haverá uma outra sina
Além
do vai e vém, a despedida
Depois
da vinda? Ilusão, menina!
Aqui,
no campo, de tão manso, é estranho,
Mesmo
que igual qualquer um destes anhos.
O
instante em que, não sei como, me afobo
Diante
daqueles olhos, olho torto,
Afoito
– não sou probo. Mas prum lobo
Faminto,
se há motivo a desconforto,
É,
dentro do bucho, o vazio e o bobo
É
o prato. Suporto: o cordeiro está morto.
E
então co’o cortejo fúnebre – abutres,
O
tecelão desse desfecho nutre,
No
urdume, a teia que ao se entrelaçar
Depois
das fiandeiras cada linha
Urdirem
sina certa no tear.
E
é que um daqueles fios é a minha
Vida
e todo o tecido, num tafetá
Descontínuo, o infinito. Por que tinha
O
Demiurgo de tecer inteiro
O
mundo no infortúnio do cordeiro?
II
Plano
que nem o pampa não há campo!
Extenso,
é o oceano – beira a borda
Do
mundo. E o vento minuano... Tampo
Os
olhos e inda vejo quando aborda as
Ovelhas,
as assopra, faz relampos
Delas,
que são as nuvens no céu, horda
De
espumas nas ondas do mar. E via
Tudo
isso com o olhos fechados, dia
Na
noite abaixo da pálpebra – o pampa
Está
dentro de mim. Armada, a tenda,
Na
em que eu acampo, é o céu aberto – tampa-
Me
co’o sereno; a grama é cama e, lendas,
Meu
refugio do mundo e é ele que acampa
No
reflexo em meus olhos, porque os venda.
Sou
eu quem o cubro a cada piscada
E
a garoa são lágrimas que nada
Estará
se la eu não estiver
Para
testemunhar, às vezes, só
Ter
fé – a estrela que brilha e sequer
Esta
viva a será; do pó ao pó
Se
for assim que alguém qualquer quiser,
Mesmo
se um sol ainda ela é. Que dó
Do
cordeiro! Morreu pra dar sustento,
Forma
a fôrma do que foi pensamento
Do
homem tecendo – é o centro do desenho
Que
ele urde num tecido ou é o objeto
Do
sacrifício, o anho, esse centro? Empenho
Em
morrer-se, de carneiro, quieto
Ou,
sorrateiro, o cão que o põe no lenho –
Qual
é mais empenho? Aqui, sob o teto,
Paredes,
sombras formam e toda a história
Me
contam, perder-se nela, ilusória,
III
Grilhões
– nos põem e mantêm à caverna,
Ensinam
o signo a qual corresponde
A
coisa e a causa a qual é subalterna.
E
o olho me leva tão longe, por onde
O
corpo não pôde. Eu, por minhas pernas,
Sou meus sentidos. Só cinco? Um se esconde
Por
de trás delas, as sombras, no verde
A
perder-se de vista em que se perde
A
luz que as projeta e é quem me conduz,
Daquelas,
a essa, pois tudo flui –
Me
jogou aqui dentro, à minha cruz
(O
espaço e o tempo), a correnteza, mui
À
espreita de quem não teima e me abduz –
Fora
o enredo do cordeiro quem fui
Não
sei e mais além da lei de panta
Rei,
plantarei, aqui em baixo, uma planta
Pra
ver se escalo por seus trinta e dois
Caminhos
até o alto e, então, escapo
Deste
ciclo, mesmo que, depois
De
ter os percorrido, esteja aos trapos.
Perguntarei
a quem encontrar : “sois
Quem
e quem foi que, fiapo a fiapo,
De
um cordeiro me manteve, ali, preso?”
E
verei que estou errado e que o peso
Das
correntes arrastam-me à baixo,
Que
é igual lá em cima. Não é pessimismo,
Mas
quem vi era o mesmo que mim, acho
Que
posso ter sido o assassino, cismo
Ter
tecido, à lembrança, o pampa; fachos
De
luz que alcançaram eu, aqui, no abismo
Recado
a si mesmo de um tecelão
Esquecido,
lembrando: tudo é em vão.
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