18/05/2013

AGNUS DEI

I

Quando eu me perco no pampa a perder
De vista, se como fosse o oceano,
Eu encontro a mim mesmo e que prazer
Em conhecê-lo, mas... um cordeiro? Ao plano
Sem fim, pois sem princípio, tem quê
De, não se sabe, majestade – arcano,
Mas, qual tantos, pastando. E esse é o início
Da estória. Que importa? É um ciclo, fictícios

Os pontos de partida – minha vida
Começa em... desconhece-se e termina
Nunca. Nenhuma linha foi partida,
Por na chegada. Haverá uma outra sina
Além do vai e vém, a despedida
Depois da vinda? Ilusão, menina!
Aqui, no campo, de tão manso, é estranho,
Mesmo que igual qualquer um destes anhos.

O instante em que, não sei como, me afobo
Diante daqueles olhos, olho torto,
Afoito – não sou probo. Mas prum lobo
Faminto, se há motivo a desconforto,
É, dentro do bucho, o vazio e o bobo
É o prato. Suporto: o cordeiro está morto.
E então co’o cortejo fúnebre – abutres,
O tecelão desse desfecho nutre,

No urdume, a teia que ao se entrelaçar
Depois das fiandeiras cada linha
Urdirem sina certa no tear.
E é que um daqueles fios é a minha
Vida e todo o tecido, num tafetá
Descontínuo, o infinito. Por que tinha
O Demiurgo de tecer inteiro
O mundo no infortúnio do cordeiro?

II

Plano que nem o pampa não há campo!
Extenso, é o oceano – beira a borda
Do mundo. E o vento minuano... Tampo
Os olhos e inda vejo quando aborda as
Ovelhas, as assopra, faz relampos
Delas, que são as nuvens no céu, horda
De espumas nas ondas do mar. E via
Tudo isso com o olhos fechados, dia

Na noite abaixo da pálpebra – o pampa
Está dentro de mim. Armada, a tenda,
Na em que eu acampo, é o céu aberto – tampa-
Me co’o sereno; a grama é cama e, lendas,
Meu refugio do mundo e é ele que acampa
No reflexo em meus olhos, porque os venda.
Sou eu quem o cubro a cada piscada
E a garoa são lágrimas que nada

Estará se la eu não estiver
Para testemunhar, às vezes, só
Ter fé – a estrela que brilha e sequer
Esta viva a será; do pó ao pó
Se for assim que alguém qualquer quiser,
Mesmo se um sol ainda ela é. Que dó
Do cordeiro! Morreu pra dar sustento,
Forma a fôrma do que foi pensamento

Do homem tecendo – é o centro do desenho
Que ele urde num tecido ou é o objeto
Do sacrifício, o anho, esse centro? Empenho
Em morrer-se, de carneiro, quieto
Ou, sorrateiro, o cão que o põe no lenho –
Qual é mais empenho? Aqui, sob o teto,
Paredes, sombras formam e toda a história
Me contam, perder-se nela, ilusória,

III

Grilhões – nos põem e mantêm à caverna,
Ensinam o signo a qual corresponde
A coisa e a causa a qual é subalterna.
E o olho me leva tão longe, por onde
O corpo não pôde. Eu, por minhas pernas,
 Sou meus sentidos. Só cinco? Um se esconde
Por de trás delas, as sombras, no verde
A perder-se de vista em que se perde

A luz que as projeta e é quem me conduz,
Daquelas, a essa, pois tudo flui –
Me jogou aqui dentro, à minha cruz
(O espaço e o tempo), a correnteza, mui
À espreita de quem não teima e me abduz –
Fora o enredo do cordeiro quem fui
Não sei e mais além da lei de panta
Rei, plantarei, aqui em baixo, uma planta

Pra ver se escalo por seus trinta e dois
Caminhos até o alto e, então, escapo
Deste ciclo, mesmo que, depois
De ter os percorrido, esteja aos trapos.
Perguntarei a quem encontrar : “sois
Quem e quem foi que, fiapo a fiapo,
De um cordeiro me manteve, ali, preso?”
E verei que estou errado e que o peso

Das correntes arrastam-me à baixo,
Que é igual lá em cima. Não é pessimismo,
Mas quem vi era o mesmo que mim, acho
Que posso ter sido o assassino, cismo
Ter tecido, à lembrança, o pampa; fachos
De luz que alcançaram eu, aqui, no abismo
Recado a si mesmo de um tecelão
Esquecido, lembrando: tudo é em vão.

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