15/03/2013

IMPERMANÊNCIA




Nada se perde, tudo se transforma. Não só o cientista, também o religioso nos ensina: a essência das cousas é imortal. Mesmo o platônico e, por conseguinte, de novo, o padre afirmam: por de trás deste, há um mundo de ideias e, dele, somos apenas reflexo. Como no rosto projetado na água, o que está em cima está em baixo e, se Narciso se afasta, o rosto continua, só o reflexo que não. Este é um mundo de ilusões, Igreja e Academia concordam: a morte é só mais uma.

Ao mesmo tempo em que nos alertam dessa farsa, ordenam-nos ao desapego, tanto a religião quanto Schopenhauer, para evitar-se às dores do mundo, cuja a raiz repousa no desejo – desejo pela permanência do que é bom, família e amigos, juventude, mas tudo se acaba.

Ora, se falam em imortalidade, como, ao mesmo tempo, condicionam-nos a levar a vida de um monge, a fim de que não desejemos e, assim, não nos deparemos com a finidade? A impermanência assumem como ilusão e, mesmo assim, tem-na como um de seus dogmas budistas, judeu-cristãos, os yuppies do new age. Dicotômico.

A contradição, todavia, está na exposição de motivos, e não nessa lei em si. O plano terreno é como uma droga e, pelo desapego, damos os primeiros passos para escapar à adição. É como um café pra curar a cachaça – mas uma droga para contrabalancear a outra, nem de longe, confunde-se à sobriedade.

O universo é um, não a diferença entre nós e o Sol, todo homem e toda mulher é uma estrela. Somos os nódulos na gelatina, uns maiores, outros pequenos. O mundo é uma só massa, contínua – cada átomo, bicho, astro e pedaço de pedra não passa de um redemoinho num mesmo oceano (palavras de Vivekananda) – somos a mesma substância, assumindo formatos diferentes. As formas mudam, e a substância permanece. Tudo que amei e se foi, parentes, paisagens que não estão mais lá, tudo continua e meu apego é único, a todo o universo, porque sobriedade está em não diferenciar um número do outro, pois, a final, são todos igualmente infinitos – eu me apeguei a unidade, e não ao que aparenta lhe serem os pedaços. E a impermanência desses é mais uma ilusão.

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