23/07/2012

PNEUMONIA


Em travesseiro que o pescoço me dói, eu rescosto esta cabeça pesada. Não importa quão macio, sempre doerá. O colchão, se duro, machuca-me as extremidades ósseas, salientadas de magreza; se macio, afundo como se ultrapassasse o nível do próprio colchão, do piso e minha respiração é hesitante – falta-me ar como se estivesse enclausurado de baixo à terra. Suo igual um homem gordo, e me descubro; logo, evém um vento frio contra quem vivo, complicando-me essa tosse e coceira na garganta.

O travesseiro eu arremesso, longe, com tanta força que, no escuro, parece-me escapar dos limites das paredes, porque não as posso enxergar. A razão me ordena: estão lá!, mas, desde que não as vejo, não as sinto. Ah, no escuro, quão maior é o meu cantinho; as paredes só estão lá, e não dentro de mim. Na cama, viro-me a barriga para cima - afinal, com a cara afunda dois palmos e meio, onde antes era o travesseiro, é complicado respirar. E eu fico contemplando a imensidão do escuro. Sinto, nele, grandeza que me alegra, homem pequeno, e, de alegria, eu dispo-me debaixo dos cobertores – assim eu suo menos. E o vento frio, ah, o vento frio, agora passa suave, acariciando-me a cara e os destapados pés.

Já fazem trinta dias de pneumonia, contados com catarro, pus e sangue – um mês de cama, sem ver um rosto amigo ou mesmo de um desconhecido, sem poder perambular, atrás do Atlanta, atrás das moças, as quais, de tanto me toparem, devem estranhar o orçamento deste mês em relação aos passados. É inevitável: eu penso em sacanagem, e me masturbo. Involuntário, eu diria. Compulsivamente, paro apenas quando a umidade nos lençóis agrava minha tosse.

Exausto, tomo, ao lado de meu cama, o jarro d’água quase todo. Sento-me, fazendo, de poltrona, o travesseiro, a fim de que a água desça. Mas, o travesseiro... arremessei-o, foi agora mesmo, para tão longe que nem pude ver. O que ele faz aqui? Caminhou, por aacaso, esse objeto inanimado até meu leito, por vontade própria?

Paredes que não enxergo, quando estavam lá, mais que prisão eram alento. Sem grades, eu, no relento, tenho a imensidão por assombro. Cada feixe de luz, mínimo, que penetra da cortina, ilumina, parcamente, formas indistinguíveis – no meu medo, parecem máscaras me encarando. Se tremo, o som das tábuas, da cama, pregam-me peça. O vento frio parece mãos que me puxam pelos pés e me unham o rosto. O colchão me engolir para 7 palmos baixo o chão. Rezo, rezo compulsivamente, como se me masturbasse: “Pai-Nosso que estais no céu!”. São movimentos dessa boca ou das mãos involuntários o que, de mecânicos, aproximam-nos das máquinas em sua incessante ladainha – a geladeira, o gerador. As vozes nem as formas somem, mas as ignoro, que me finjo forte por rezar.

Quando adormeço, sonho e o sonho, por ser lembrança, é pesadelo. Deus, por que a expressão de desapontamento no rosto dela vem me atormentar todas as noites, para me matar de dó e, de arrependido, remoer-me. Quando eu acordo, quero, mesmo sem sono, dormir mais, para evitar meus sonhos que vivi. “Antes as assombrações a isso, Senhor meu Deus!”. E meu desânimo é incapacidade de extrair sabor do gosto, frigidez para com a vida; ela inteira, que podia ter sido, não será... quixeramobim...

Desprego-me da cama, igual quem se levanta de um atropelamento. Sem saber se é noite ou dia, permaneço ela encerrada lá, a cortina, nem espio no relógio. Sirvo-me da garrafa esquecida sem a tampa, sobre a mesa. Mastigo qualquer coisa, porque assim ordena-me o bom senso.

Depois da ceia, como é bom um cigarro. Chego até a caçar um maço e quando me apanho nessa busca, rio de mim mesmo. Não posso mais fumar, é o que o médico falou; não na quantidade de antes, “três ou quatro por dia, é o teu máximo” ele receitou. Resolvi, então, extirpar logo, de uma vez, o vício. Se antes era mais de uma carteira, três ou quatro resumir-se-iam em tortura. Recorro, agora, esperando que me aquiete essa sofreguidão, ao álcool, ao marroquino e ao café. 3, 4 ou 5 bolinhas, xícaras e taças, menos mal aos meus pulmões e que alívio da vontade do tabaco – e ainda não são cancerígenos. Hilário! Falo como se me preocupasse com saúde.

Triste é, logo eu, que prezo a sobriedade; quando – antes – bebia, era querendo pisar um outro mundo – voltando a este, de cabeça fria. Tenho, hoje, de conviver com a realidade destorcida o tempo todo. Eu deito a cabeça pesada no travesseiro, o corpo fraco no colchão e – já era de esperar-se – não durmo. Fico contemplando as formas que imagino no escuro, interpretando, do silêncio, os sons.

Que força é essa que me sufoca, a fim de que, por minha respiração errática, não durma e quando durmo, acordo remoído e deseje mais descanso? Será o vento frio, que me serpenteia, ou os vapores invisíveis da garrafa do Velho Barreiro que deixei aberta em cima da mesa? Ah, como eu queria: do gosto, extrair algum sabor; descanso, por haver dormido, um sorriso por ter sobrevivido a uma saúde tão debilitada – mas, em vez disso, eu a maltrato.

Um comentário:

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    Rezo, rezo compulsivamente, como se me masturbasse: “Pai-Nosso que estais no céu!”. São movimentos dessa boca ou das mãos involuntários o que, de mecânicos, aproximam-nos das máquinas em sua incessante ladainha – a geladeira, o gerador. As vozes nem as formas somem, mas as ignoro, que me finjo forte por rezar.
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    sentindo falta dos poemas aqui.

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