23/07/2012

MAIS CHOP, MENOS CHOPIN

Férias? Como eu lhe queria um significado. Este Julho, de descanso, foi-lhe antônimo! Nunca ralei tanto na vida, e sem essa de vanglória! Minha origem cristã deixou-me claro que trabalho é punição, e não motivo de orgulho:

“17 – E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
18 – Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.
19 – No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.” Gn, 3:17-19

Se, ao menos, eu tivesse um Éden de recordar... a infância, quiçá, por se fazer nada? Melhor, o ensino médio, de fazer o que der na telha. Os dois primeiros anos do secundário, melhor ainda, longe do vestibular. Era uma vida sem causa e conseqüência. Foi meu paraíso, onde os resultados do trabalho não necessitavam de trabalho algum.

Agora, eu cresci, e quão triste é perceber que nem todos perceberam: o fruto daquela árvore era para se, em gula, abocanhar, sim! O preço, o exílio. Talvez eu, M., P., L. sejamos os errados nesta história, por baixar cabeça à nossa sina; e eles, certos em sua tentativa de reproduzir, a todo custo, aquele mundo onde vivemos e do qual fôramos expulsos. Se pensamos no futuro, é condenação, e não maturidade.

Era, dessa dúvida, eu a criar formas-pensamento tão perturbadoras, discutindo com um desses amigos ficados para trás, no in-box do facebook. E se ele estiver certo? É ainda mais triste que se errado: o justo ficará pra trás justamente por ser justo. O fluxo desta vida é amoral: requer pouco além de instinto de sobrevivência. Ele e seus companheiros de hedonismo quixotesco e idealismo utópico apontam em minha integração às coisas tal qual estão dispostas o sinal de minha derrocada – força é remar contra a correnteza. Mas, desde quando integrar-se é se entregar? Discutiremos isso na outra margem, camaradas.

E era mais de meia madrugada! Não bastasse chegar tarde pra acordar cedo – como supracitado, neste Julho “férias” nada me significou – fui dormir mais tarde ainda por uma discussão que deu em nada. Nem me lembro como foi, só acordei babando em cima do computador. Tocava, da Opus nº 9, a Noturna nº1, em Bb* menor, de Chopin. Não é a melhor música pra se levantar. Dormir de novo foi se fazendo ideia fixa, até que o Lucas me ligou. Só fechei o notebook e saí correndo pra pegar carona.

Que dia! Ao ritmo desta vida, já me acostumei. O cansaço não me surpreende. Era outra força que se abatia sobre mim, não pude decifrar. De tudo, tomei o pior dos lados. Desesperei-me sem hesitar. Briguei à toa e pus, terra abaixo, toda perspectiva de crescimento a qual me levou ao sacrifício das merecidas férias. Quis correr para o ônibus do ENED que me despejaria, grátis, lá na Paraíba. Resumindo, desacreditei.

Quem sabe eu não devia voltar a viver como meus amigos mais antigos? Pois é, aquela conversa de dantes de deitar-me acabou com o meu dia.

De volta a casa, só o abri e ele (o PC) voltou para onde estava: o finzinho da Noturna nº 1. Breves segundos de silêncio e, papum, a nº2. Assim foi, até as póstumas, que ouvi com fone de ouvido. Não aguentei. Acendi um piracanjuba ouro, andando de um lado pro outro. Ainda ouvia Chopin, mesmo com o headfone distante de minhas orelhas. Tomei uma atitude drástica: cliquei no primeiro allegro da Primavera de Vivaldi.

Ê, Tonim, que alívio! Então, estava eu, sorridente, com uma bavaria premium na mão, e o palheiro inda aceso entre os dedos. O segundo allegro – pulei o largo – deixou o momento de euforia para o de reflexão... Como eu me permiti cair no sono ao som das noturnas de Chopin? Não há obra que melhor traduza o tempo que não passa. Não o tédio de quem sente, como se meses, as semanas passando; mas o tempo que não surte efeito. É a trilha sonora dos que ficam para trás, homens que, daqui décadas, serão o mesmo que foram há cinco anos, em nossa adolescência.

Desafiei-me a ouvi-lo, novamente, para elaborar melhor minhas sensações sobre sua música, escrever a respeito. Pedi arrego, novamente. Não quero mais, por agora, caluniar a vida alheia de meus camaradas, tampouco ouvirei Chopin dentro dos próximos dias. Porque o meu maior medo e, no fundo, meu orgulho, é ser, irremediavelmente, um deles.

* Não sou músico, ignoro como fica na escala latina.

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