Férias? Como eu lhe queria um significado. Este Julho, de descanso, foi-lhe
antônimo! Nunca ralei tanto na vida, e sem essa de vanglória! Minha origem
cristã deixou-me claro que trabalho é punição, e não motivo de orgulho:
“17 – E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste
da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por
causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
18 – Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.
19 – No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra;
porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.” Gn, 3:17-19
Se, ao menos, eu tivesse um Éden de recordar... a infância, quiçá, por se
fazer nada? Melhor, o ensino médio, de fazer o que der na telha. Os dois
primeiros anos do secundário, melhor ainda, longe do vestibular. Era uma vida
sem causa e conseqüência. Foi meu paraíso, onde os resultados do trabalho não
necessitavam de trabalho algum.
Agora, eu cresci, e quão triste é perceber que nem todos perceberam: o fruto
daquela árvore era para se, em gula, abocanhar, sim! O preço, o exílio. Talvez
eu, M., P., L. sejamos os errados nesta história, por baixar cabeça à nossa
sina; e eles, certos em sua tentativa de reproduzir, a todo custo, aquele mundo
onde vivemos e do qual fôramos expulsos. Se pensamos no futuro, é condenação, e
não maturidade.
Era, dessa dúvida, eu a criar formas-pensamento tão perturbadoras, discutindo
com um desses amigos ficados para trás, no in-box do facebook. E se ele estiver
certo? É ainda mais triste que se errado: o justo ficará pra trás justamente
por ser justo. O fluxo desta vida é amoral: requer pouco além de instinto de
sobrevivência. Ele e seus companheiros de hedonismo quixotesco e idealismo
utópico apontam em minha integração às coisas tal qual estão dispostas o sinal
de minha derrocada – força é remar contra a correnteza. Mas, desde quando
integrar-se é se entregar? Discutiremos isso na outra margem, camaradas.
E era mais de meia madrugada! Não bastasse chegar tarde pra acordar cedo –
como supracitado, neste Julho “férias” nada me significou – fui dormir mais
tarde ainda por uma discussão que deu em nada. Nem me lembro como foi, só
acordei babando em cima do computador. Tocava, da Opus nº 9, a
Noturna nº1, em Bb* menor, de Chopin. Não é a melhor música pra se levantar. Dormir
de novo foi se fazendo ideia fixa, até que o Lucas me ligou. Só fechei o
notebook e saí correndo pra pegar carona.
Que dia! Ao ritmo desta vida, já me acostumei. O cansaço não me surpreende.
Era outra força que se abatia sobre mim, não pude decifrar. De tudo, tomei o
pior dos lados. Desesperei-me sem hesitar. Briguei à toa e pus, terra abaixo,
toda perspectiva de crescimento a qual me levou ao sacrifício das merecidas
férias. Quis correr para o ônibus do ENED que me despejaria, grátis, lá na
Paraíba. Resumindo, desacreditei.
Quem sabe eu não devia voltar a viver como meus amigos mais antigos? Pois é,
aquela conversa de dantes de deitar-me acabou com o meu dia.
De volta a casa, só o abri e ele (o PC) voltou para onde estava: o finzinho
da Noturna nº 1. Breves segundos de silêncio e, papum, a nº2. Assim foi, até as
póstumas, que ouvi com fone de ouvido. Não aguentei. Acendi um piracanjuba ouro,
andando de um lado pro outro. Ainda ouvia Chopin, mesmo com o headfone distante
de minhas orelhas. Tomei uma atitude drástica: cliquei no primeiro allegro da
Primavera de Vivaldi.
Ê, Tonim, que alívio! Então, estava eu, sorridente, com uma bavaria premium
na mão, e o palheiro inda aceso entre os dedos. O segundo allegro – pulei o
largo – deixou o momento de euforia para o de reflexão... Como eu me permiti cair
no sono ao som das noturnas de Chopin? Não há obra que melhor traduza o tempo
que não passa. Não o tédio de quem sente, como se meses, as semanas passando; mas
o tempo que não surte efeito. É a trilha sonora dos que ficam para trás, homens
que, daqui décadas, serão o mesmo que foram há cinco anos, em nossa
adolescência.
Desafiei-me a ouvi-lo, novamente, para elaborar melhor minhas sensações
sobre sua música, escrever a respeito. Pedi arrego, novamente. Não quero mais,
por agora, caluniar a vida alheia de meus camaradas, tampouco ouvirei Chopin
dentro dos próximos dias. Porque o meu maior medo e, no fundo, meu orgulho, é
ser, irremediavelmente, um deles.
* Não sou músico, ignoro como fica na escala latina.
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