Em travesseiro que o pescoço me dói, eu rescosto esta cabeça pesada. Não importa quão macio, sempre doerá. O colchão, se duro, machuca-me as extremidades ósseas, salientadas de magreza; se macio, afundo como se ultrapassasse o nível do próprio colchão, do piso e minha respiração é hesitante – falta-me ar como se estivesse enclausurado de baixo à terra. Suo igual um homem gordo, e me descubro; logo, evém um vento frio contra quem vivo, complicando-me essa tosse e coceira na garganta.
O travesseiro eu arremesso, longe, com tanta força que, no escuro, parece-me
escapar dos limites das paredes, porque não as posso enxergar. A razão me
ordena: estão lá!, mas, desde que não as vejo, não as sinto. Ah, no escuro,
quão maior é o meu cantinho; as paredes só estão lá, e não dentro de mim. Na
cama, viro-me a barriga para cima - afinal, com a cara afunda dois palmos e
meio, onde antes era o travesseiro, é complicado respirar. E eu fico
contemplando a imensidão do escuro. Sinto, nele, grandeza que me alegra, homem
pequeno, e, de alegria, eu dispo-me debaixo dos cobertores – assim eu suo
menos. E o vento frio, ah, o vento frio, agora passa suave, acariciando-me a
cara e os destapados pés.
Já fazem trinta dias de pneumonia, contados com catarro, pus e sangue – um
mês de cama, sem ver um rosto amigo ou mesmo de um desconhecido, sem poder
perambular, atrás do Atlanta, atrás das moças, as quais, de tanto me toparem,
devem estranhar o orçamento deste mês em relação aos passados. É inevitável: eu
penso em sacanagem, e me masturbo. Involuntário, eu diria. Compulsivamente,
paro apenas quando a umidade nos lençóis agrava minha tosse.
Exausto, tomo, ao lado de meu cama, o jarro d’água quase todo. Sento-me,
fazendo, de poltrona, o travesseiro, a fim de que a água desça. Mas, o travesseiro...
arremessei-o, foi agora mesmo, para tão longe que nem pude ver. O que ele faz
aqui? Caminhou, por aacaso, esse objeto inanimado até meu leito, por vontade
própria?
Paredes que não enxergo, quando estavam lá, mais que prisão eram alento. Sem
grades, eu, no relento, tenho a imensidão por assombro. Cada feixe de luz,
mínimo, que penetra da cortina, ilumina, parcamente, formas indistinguíveis –
no meu medo, parecem máscaras me encarando. Se tremo, o som das tábuas, da
cama, pregam-me peça. O vento frio parece mãos que me puxam pelos pés e me
unham o rosto. O colchão me engolir para 7 palmos baixo o chão. Rezo, rezo
compulsivamente, como se me masturbasse: “Pai-Nosso que estais no céu!”. São
movimentos dessa boca ou das mãos involuntários o que, de mecânicos,
aproximam-nos das máquinas em sua incessante ladainha – a geladeira, o gerador.
As vozes nem as formas somem, mas as ignoro, que me finjo forte por rezar.
Quando adormeço, sonho e o sonho, por ser lembrança, é pesadelo. Deus, por
que a expressão de desapontamento no rosto dela vem me atormentar todas as
noites, para me matar de dó e, de arrependido, remoer-me. Quando eu acordo,
quero, mesmo sem sono, dormir mais, para evitar meus sonhos que vivi. “Antes as
assombrações a isso, Senhor meu Deus!”. E meu desânimo é incapacidade de
extrair sabor do gosto, frigidez para com a vida; ela inteira, que podia ter
sido, não será... quixeramobim...
Desprego-me da cama, igual quem se levanta de um atropelamento. Sem saber se
é noite ou dia, permaneço ela encerrada lá, a cortina, nem espio no relógio.
Sirvo-me da garrafa esquecida sem a tampa, sobre a mesa. Mastigo qualquer
coisa, porque assim ordena-me o bom senso.
Depois da ceia, como é bom um cigarro. Chego até a caçar um maço e quando me
apanho nessa busca, rio de mim mesmo. Não posso mais fumar, é o que o médico
falou; não na quantidade de antes, “três ou quatro por dia, é o teu máximo” ele
receitou. Resolvi, então, extirpar logo, de uma vez, o vício. Se antes era mais
de uma carteira, três ou quatro resumir-se-iam em tortura. Recorro, agora,
esperando que me aquiete essa sofreguidão, ao álcool, ao marroquino e ao café.
3, 4 ou 5 bolinhas, xícaras e taças, menos mal aos meus pulmões e que alívio da
vontade do tabaco – e ainda não são cancerígenos. Hilário! Falo como se me
preocupasse com saúde.
Triste é, logo eu, que prezo a sobriedade; quando – antes – bebia, era
querendo pisar um outro mundo – voltando a este, de cabeça fria. Tenho, hoje,
de conviver com a realidade destorcida o tempo todo. Eu deito a cabeça pesada
no travesseiro, o corpo fraco no colchão e – já era de esperar-se – não durmo.
Fico contemplando as formas que imagino no escuro, interpretando, do silêncio,
os sons.
Que força é essa que me sufoca, a fim de que, por minha respiração errática,
não durma e quando durmo, acordo remoído e deseje mais descanso? Será o vento
frio, que me serpenteia, ou os vapores invisíveis da garrafa do Velho Barreiro
que deixei aberta em cima da mesa? Ah, como eu queria: do gosto, extrair algum
sabor; descanso, por haver dormido, um sorriso por ter sobrevivido a uma saúde
tão debilitada – mas, em vez disso, eu a maltrato.

"
ResponderExcluirRezo, rezo compulsivamente, como se me masturbasse: “Pai-Nosso que estais no céu!”. São movimentos dessa boca ou das mãos involuntários o que, de mecânicos, aproximam-nos das máquinas em sua incessante ladainha – a geladeira, o gerador. As vozes nem as formas somem, mas as ignoro, que me finjo forte por rezar.
"
sentindo falta dos poemas aqui.