Liderança, imperativo da pós-modernidade. Todos querem ser –
e devem querer. Termo que transborda em nossos ouvidos, pela porta do RH,
livros de auto-ajuda, pelo púlpito do sacerdote. Os gurus da nova era guiam seus discípulos
para um cargo mais alto, o carro do ano, a família do comercial de TV. Os
falsos profetas, na inércia de Calvino, ainda expõem aparências como sinais da
predileção divina.
Mas é o desprezo a toda fórmula pronta que me moveu para o
papel e caneta, tentar provar que, na boca dos muitos, “líder” é pura emissão
fonética, nada além de um nome. Destronar esse flatus vocis pela universalia
post rem da verdadeira liderança é missão de todo materialista, a tempos dessa
contenda, que desfecha, entre a moral** e a vontade.
Antônio até tentou convencer-me de que esses provações pelas
quais passamos, candidatos a vagas, bolsas, fosse método de recrutar “líderes”.
Preenchi as alternativas de um desses questionários e, de cara, sobressaíram os
juízos de valor: quantas vezes ter tomado a atitude valendo menos pontos livrou-me
do fracasso. Tais testes: a) ou são filtros morais do patrão para com o
empregado – sim, ser filho da puta, em certas ocasiões, é o certo;
b) ou, pelo menos, irrefutável prova do absurdo na falácia
de que, ao Séc. XIX, produtividade requer gênio, ao contrário da alienação
doutrora; pois o tipo desses exames valora padrões e tão-só, isso é: quem
responde ao maior número de respostas segundo uma fórmula, e não randômico, é
líder. Ou seja, ainda é preciso o operário ser espelho dos produtos na esteira
da fábrica em que produz, enfileirados, um igual ao outro.
São avaliação comprovadas pela ciência, rezam os crentes. É
fácil, convencionando deliberadamente a semântica de uma palavra, provar-lhe.
Por exemplo: se um neurologista, nas preliminares de uma pesquisa, estabelece
que a sinapse falava-se espírito na boca dos antigos, já tem a prova da
existência da alma. Definiram liderança como personalidade, apenas subjetivamente
aferível, sendo que liderança é fato concreto, constatando-se só na matéria.
Darei mais voltas, pela didática: o poder é impossível como
um contrato unilateral. Para um mandar, outro tem de obedecer. O Estado era
soberano sobre o Morro do Alemão, e daí, se lá era o poder paralelo que valia:
desde quando há autoridade na letra morta do de jure?
Não é a coroa que faz o rei, e sim o reino. Há líder sem
seus liderados? Só em dever-ser, no direito, o faz-de-conta formal.
Mais voltas: dois evangélicos debatiam na mesa da padaria.
Acordei, na verdade virado, do ap. do Túlio, na época do Millennium, e os
testemunhei recapitulando, duma aula de “catequese” (não sei o equivalente
protestante), o conceito de “líder”.
– É o pastor que agrupa, alimenta e protege as ovelhas –
sintetizou o mais velho.
Fórmulas prontas, amuleto do supersticioso contra a matéria.
Toda a filosofia ter virado psicologia, desde o mais teólogo que filósofo Kierkegaard,
encarnado toda a tradição iniciada pelos pais da reforma, como a de que a
salvação vem só pela intenção, independente das obras, da predestinação, levou
a filosofia ao esquecimento das mudanças externas a favor das interiores,
aprofundou o abismo entre ideia e matéria – sacrificou o empirismo à pira da
metafísica.
A deontologia, mãe de toda ilusão: é a aparência de que não vivemos
num mundo de aparência, a máscara de todas as máscaras. O homem da democracia
não somente finge, mas finge para si mesmo acreditar em tudo que prega – isso é
o que chamam de politicamente correto.
Mas a fórmula daqueles dois fiéis da Videira não é, de todo,
inválida; por errada, não se entende que não funciona. É pela ferramenta da
moral que os fracos fazem, de si próprios, instrumentos – nesse caso, de todos
os véus. “Agrupar, dar de comer e proteger” o gado é o suprassumo do marketing
pessoal, aparência que, mantida, é um dos melhores meios para o verdadeiro
líder.
Mais: iniciativa, que é, em última instância, o desprezo às
consequências, apostar com a vida; a informação privilegiada, mantida na
alienação, e a aparência de dependência fazem, na maioria dos casos, o líder. É
muito mais desespero, e até maldade, que caráter.
Tancredo Neves, com 76, lançou-se em campanha por todo o
país, mesmo sendo indiretas as eleições. Num dia de calor infernal, foi a
Belém, acompanhando todo o percurso da procissão do Círio de Nazaré. De volta
ao hotel, encontrou, destroçados, os jornalistas que o acompanhavam, mas como
se mostrasse lépido e fagueiro, ouviu de Ricardo Kotcho a
indagação sobre as causas de sua excepcional disposição. Respondeu ser a
vitamina que vinha tomando. Quiseram saber que maravilha era aquela e Tancredo
respondeu: “é a vitamina P.” Como ficassem todos na mesma, desconhecido
que era o remédio, ele acrescentou: “P de Poder…”
Preenche vidas vazias, cura a depressão. A política está
cheia de potenciais suicidas. Querem fazer do poder, fato tão-só conjuntural,
circunstância, o sinal de sua predestinação da Reforma.
Lula que gostava de usar futebol para explicar política.
Para além dos 40 minutos de espetáculo, na arena, araram, em torno do circo,
miríade de quiosques e bancas para suprir a necessidade de lucro fora da
apresentação. Das entrevistas coletivas às estatísticas desde o domínio da
bola, marcações e finalizações, além da opinião dos comentaristas, os gurus do
esporte, preenchem a atenção e, ao mesmo tempo, desviam do principal. Os
profetas interpretam os sinais, das marcações às finalizações, e pior, o
espírito de equipe, a garra do treinador, critérios subjetivos, para predizer um
fato.
Nesse espírito, os perdedores culpam o acaso, pois se sentem
os melhores jogadores. Quando ganham, ao mesmo acaso, agradecem: “a Providência
está comigo”. Somos arrogantes demais para reconhecer nossa incompetência, no
fracasso; a falsa modéstia é tanta que pomos os louros em Deus, para nos
enaltecer no triunfo.
Nunca a fé numa equipe ganhou um caneco do mundo, isso é
subir em cima do salto. O que ganha são gols, partidas ganhas, e pronto. Como
numa eleição. Desfocam nossa atenção do principal, com trajetória dos
prefeitáveis, propostas, plano de governo, blá, blá, blá. Isso mesmo,
propostas. Pois não são elas que ganham eleições, mas tão-só votos. Cabos
eleitorais fortes e militância cega. Complicar o simples é sintoma de paranoia.
Mistificar o feijão com arroz. Fingindo-se um democracia ideal, enobrece o mais
sujo e antigo jogo político.
A vontade é o princípio de todas as coisas “ sou o que sou”,
“penso, logo existo”. Não há outra fórmula senão esse jogo de ligar os pontos:
da vontade ao objeto do desejo. Queres medir a capacidade de um homem, veja o
quão reta a linha que leva da ideia à realização. Só no reino que o criador
passa de um “eu sou” para “senhor do mundo”. Tua procura é por um líder, por forjar,
de ti, um, vai a quem aglomera o maior número desses que Nelson Rodrigues
batizou “cretinos fundamentais” – liderados, a alma da liderança; assim como,
sem presas, não existe o predador.
É por essas e outras que prefiro a camaradagem à liderança.
* Edir Macedo, T. Harv Eker, o autor de “Segredos da Mente Milionária” (¬¬)
e Deepak Chopra, que escreveu, por exemplo, “Sete Leis Espirituais do Sucesso" (oO).
** Principalmente a de Frankfurt/Chicago.



Que merda! E você nunca leu nada de nenhum desses autores! O mesmo fanfarrão de sempre!
ResponderExcluirAs pessoas não podem deixar o espírito de rebanho: é sua natureza débil, sua condição.
ResponderExcluirVir gente que a iluda e domine é algo quase que natural, de tão previsível.
Na ideologia cristã, católica ou protestante, só muda a forma desse domínio - que passa do católico-feudal-imóvel para a dinâmica-protestante-mercantil.
Até a virtude moral deixou de ser mandamento para ser um líquido imperativo categórico(Kant mesmo é um exemplo da maleabilidade burguesa da metafísica, como teologia remoldada).
Caro Anônimo, eu queria concordar contigo, mas, infelizmente, eu cheguei a ler "Segredos da Mente Milionária", por consideração a Marcello Lucena, que me deu o livro...
ResponderExcluirQuanto ao Deepak Chopra, foi mal, não vou ler mesmo, só se alguém me der de presente... mas livro ruim dá pra julgar pela capa, fazer o q...
agora, eu acho q não preciso ler Edir Macedo pra esculhambá-lo, né?