– Eu sei: toda a sua fantasia a meu respeito tem origem na admiração. Mesmo assim, diminui-me – o primeiro gole – ninguém é, por si, sim por seus gestos. No princípio, é o homem, depois o ato – mas, na balança, ficam as ações para mensurá-lo, porque o homem, em si, é inalcançável.
Atrás do casco, na cara de pobre coitado, viam-se os olhos. Tomou a garrafa em suas mãos, despejando, contra o copo, seu restante. E afoga o seu olhar na espuma da cerveja.
– Mas o líquido não é outro por ter mudado o formato – pôs o adendo, em referência a definição física do termo – E é à forma que eles se apegam, e esquecem o conteúdo. Mais importa se grita ou fala manso, que se mente ou diz a verdade.
– É a insultante polidez dos grandes, dos que aparentam, tão-somente aparentam e por isso têm o respeito alheio, não é?
– Diderot?
E ele bebeu em confissão de que não era de autoria própria o pensamento.
– Enfim... – olhou para o copo cheio, e recusou-se a o tragar – é claro, o dilema do formato e conteúdo se aplica a polidez, que é quase sempre o recipiente de um teor um tanto contraditório a finesse. Mas não é a fala agradável dos almofadinhas que me apoquenta – não é o principal.
– E é o quê, a final?
– Não a amo.
O silêncio, na maioria das vezes, quer dizer nada além do desinteresse de um interlocutor que ou não sabe fingi-lo ou não se importa em ser educado.
– Eu me apeguei as suas formas, mais da mente – isso é, sua personalidade forte – que às físicas, das quais também não posso me queixar. Mas jamais a julguei pelos seus atos e, muito pelo contrário, pu-la sobre santuário para além de todo o juízo de valor, num altar além do bem e do mal. E por quê? Pois simplesmente eu me impressionei com aquela mulher. Busquei um amor legítimo e, na busca por suas ações que o justificassem, deparei-me com a desilusão – só estava impressionado.
– Camarada, perdoa, mas me estranhas. Não há método de se amar. Vasculhas por sentido, não hás de achar nada mesmo – se encontras, aí te digo, que amor interesseiro! Ele é sentimento, não unidade métrica. Se a distância até o inalcançável, como o homem, é o infinito, essa mesmo deve ser sua medida. Alcança uma mulher, por ponte, sobre qualquer defeito que a encobre, para, sem sombra de dúvida, afirmar: “é ela, mesmo que o porquê eu desconheça. Mesmo que não preste, é ela!”.
Riu, e brindaram ao ciclo de dor que se deu por encerrado.
E eis que o ciclo era uma cobra comendo pelo rabo – não tinha fim. Mencioná-lo por concluso, douta ignorância.

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