10/09/2012

CATARATA


– Se o acaso concedeu-me desejar, que o desejo se consuma – há de ser do seu agrado. Submissão a um destino superior amoral é verdadeiro livre-arbítrio. No entanto, é o contrário que pregam – defecam pela boca por seus olhos estarem opacos. Em desanuviá-los, a gastura é a mesma de ver-se o bisturi cortando as córneas para extirpar a catarata. Eu aceito o que der na telha e, por isso, sou livre. Pobre do desgostoso de si próprio por querer – e ele enaltece: “sou livre por que não faço tudo o que quero, forte, pois resisto a tentação de meus desejos” – a catarata: fábulas que lhe enfiaram goela baixo, histórias cujo o desfecho é sempre a moral da história.

A voz pesada do clínico entretia o paciente, durante a delicada operação. Os glóbulos esbugalhados, à diante, a ponta da navalha cirúrgica. Não te mexes e não mudes de ideia, senão é tu a rasgar teus olhos, não as mãos do cirurgião, muito menos o bisturi.

– Quão injustiçadas os instrumentos! Da faca, a virtude é ser afiada, não mais ou menos útil nas mãos de um açougueiro ou do assassino – presta se corta, caso contrário, afia-a ou a dispensa – e o doutor joga fora o bisturi, após uma fria análise em sua própria mão - este está bom – e, enrubescido, penetrou-lhe.

– Teus olhos – prosseguiu o médico, com a cara sobre a sua – sangram e o sangue te anuvia as vistas mais do que antes. Por que foste de mexer essa cabeça? Aceita a dor, que te acompanhará, a vida toda, como cegueira... que fazer, se foi de tua complacência, até agora, não enxergar. Sirva de lição para o olho que te resta.

A vítima levanta-se da mesa após uma cirurgia a qual não encobriu com anestesia, tropeçando nos equipamentos do cirurgião – pareciam ferramentas de um mecânico. Sujo de óleo, o chão lhe escorregou. No tombo, já estava à rua.

– Volta para terminarmos; melhor um caolho de corpo que um cego de alma – ordenou.
O homem cambaleia pelas ruas, a procura de esquivar-se àquela dor. O sangue delineia o rastro. Só temos quatro litros, e ele caiu na Av. Mutirão, afogando-se em seu vômito.

“Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente.”

“E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.”

Mas esse não é uma História de altruísmo, nem um mito sobre a iluminação.

– Eu pensei que não tivesses a coragem de voltar – confessou o doutor, sentando o paciente na velha cadeira de oftalmologista.

– Ah! Por quê, por quê? Sequer mexi! – indignou-se, ao ter o olho restante igualmente extraído.

O paciente/vítima, mesmo não enxergando, pelo barulho dos dentes batendo contra o que, como bexiga, explodiu, sentia o médico deglutindo o seu glóbulo, enquanto, debatendo, perguntava-se: “por quê?”.
A resposta do médico era curta e grossa como um “porque eu quis”.

Ele confiou, por não enxergar bem, sua visão aos delírios doutro homem. Melhor seria ver por seus estrábicos e opacos olhos, que, apesar de tudo, eram seus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

S