13/05/2012

FORA MARCONI - Uma Análise Imparcial

Nestes tempos em que a descrença para com o homem público levou-nos à apatia política generalizada, é obrigação moral de todos, independentemente do posicionamento político, orgulhar-se da garra daqueles que vão às ruas com palavras de ordem: “Marconi, bicheiro, devolve meu dinheiro!”, “Hei, Goiás, Marconi nunca mais”.

O “Fora Marconi!” é uma mobilização que envereda esforços, para além de sua óbvia reivindicação, para amadurecer em um verdadeiro movimento. Sou suspeito nesse meu posicionamento – de que a convulsão social não atingiu seu ápice. Mesmo havendo participado de uma ou outra reunião, bem no começo, sequer vislumbrava que ia dar no que deu: 10 mil reunidos em marcha no dia 21 de Abril. Na primeira, do dia 14, das quase 15000 pessoas confirmadas on-line, pouco mais de 3000 compareceram!

Não que 3000 seja pouca cousa, a ponto de certos jornais (não preciso dar nome aos bois) confundirem o número real com “pouco mais de 500”. Desde que ouvi o neologismo slacktivism (junção das palavras slack, frouxo, preguiçoso, e activism, do inglês), um ativismo acomodado, típico da era digital, onde os mobilizados se preocupam mais com “curtir” uma página de rede social do que agir, não pude deixar de associá-lo ao “Fora Marconi!” e tantos outros ditos movimentos que inauguram essa era de marchas (“da Maconha”, “Slut Walk”, “Ocupy Wall Street”). Os 10 mil do dia 21, em contrapartida, agora me impossibilitam a descrença no futuro dessa causa.

Ressalto: a mobilização merece o entusiasmo dos goianos, não importa a posição quanto a Marconi. Merece o encorajamento de todos o empenho desses que traçam o perfil do jovem brasileiro, cidadão ativo que toma em suas mãos o destino da Nação. Quem discorda do pleito, que se manifeste também, ao invés de exigir que calem a boca, generalizando-os como arruaceiros, fazendo sensacionalismo em cima de um ou outro imbecil que pintou o TRE (com guache, inda por cima, crianças!) ou fez de aquarela o rosto e farda de um PM.

Quem não se orgulha de uma geração que sabe fazer valer a sua liberdade de expressão, conquistada com suor, lágrimas e sangue por seus pais e avós, não tem muito crédito em seus argumentos. O movimento estudantil não está morto, como não cansam de dizer esses mesmos pessimistas mal intencionados.

“Pessimistas”, “mal intencionados”... são, na verdade, pobres coitados que teem acesso a, no máximo, um jornal impresso e um televisivo, quase sempre ligados à mesma fonte. Se eu e meus amigos mais esclarecidos ficamos a ranger dentes ante uma patricinha pintando o milico, ou frente a meia dúzia de “punkekas” lançando paus aos ônibus, solidarizo à indignação do homo medius goiano.

Na última manifestação, desse Sábado, dia 5, quando uns poucos garotos e moças burlaram as catracas do eixão e da Praça A – sem pôr em risco o espírito de pacificidade, ressalva-se – cheguei a esboçar um sorriso de admiração: “nada como o tête à tête com o trabalhador indo bater ponto”. Logo notei quão equivocado estava eu e eles em nossa inocência. Deve-se prever o sensacionalismo e a opinião disforme do homem comum; chocar é desnecessário, e não raro traduz-se em menosprezar os valores daqueles a quem se pretende convencer: a Dona Maria, o Seu João, além de prato cheio para a imprensa marrom.

Por falar em imprensa, analisem o simbolismo desta cena: a TV Anhanguera abrindo o caminho, em meio ao trânsito pesado, para a passeata, nesse último Sábado. “A opinião pública está com o ‘Fora Marconi!’”, seria a conclusão de qualquer um ao bater os olhos numa capa dessas. Não que o respaldo da mídia reflita a representatividade. Quem busca apoio popular, todavia, não pode se dar ao luxo de refutar suporte de tal aparato. Críticas cabem e sempre caberão aos meios de comunicação, tantas vezes omissos por subserviência aos poderosos. Mas qual a crítica contida nos palavrões e dedos médios erguidos de meia dúzia de punkekas, para a câmera da TV? Enquanto alguns amigos fotografavam, sem descanso, aquela imagem simbólica, tinha esses anencéfalos.

Foi, também, de ranger os dentes aquela gordinha dos infernos – a que pintou PM – com microfone em mãos, recebendo aplausos. Não estamos mais nos anos de chumbo; atitudes de tal natureza justificar-se-iam na legítima defesa, frente aos abusos do poder: Parque Oeste Industrial, Pinheirinho, em tantos Estados em que a resposta a protestos pacíficos é cães, gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha. Quem, em sã consciência, humilha um funcionário (afinal, o povo é patrão de cada policial) em devido exercício de sua função. Não que a PM mereça prêmio por agir conforme a lei, é sua obrigação; não obstante, provocar é dar pretexto a pancadaria, é queimar a imagem do movimento. Se vocês da marcha não querem passar por baderneiros, ponham essa filhinha de papai em seu devido lugar, com vaias.

Ainda sobre fardados, lembremo-nos deles sem farda, no meio da multidão. De meia em meia hora, alguém, no carro de som: “pessoal, alerta! Há policiais à paisana, infiltrados na manifestação”. Friso o “infiltrados”. Basta uma breve passada de olhos para reconhecê-los: cara fechada, óculos escuros, vestidos como se, depois da passeata, fossem pra Royal – se estão “disfarçados”, a inteligência da PM precisa de repensar sua atuação. E por que “infiltrados”? São goianos como nós outros, tem todo o direito de protestar...

(Risos). Permita-me esse tico de ironia, leitor. Lá na marcha, brinquei algumas vezes, bem perto dos ditos infiltrados: “eu gostaria de agradecer o apoio dos trabalhadores da segurança pública aqui presentes. Já combatem o crime nas ruas, agora protestam contra ele se apoderando do governo”. Uma minoria de idiotas (manifestantes comuns, não policiais) não captava a ironia – fazem jus ao estereótipo negativo de jovem alienado, protestando por pura empolgação (se não captam uma ironia, são alienados). São os mesmos que, quando eu via formando a roda para baseado, ia alertar: “velho, faz isso pra lá da marcha! Se tiram foto, é queimação” – nem davam ouvidos, confundindo um mero ato recreativo com um grito por liberdade.

Enquanto uns ficam paranoicos por haver esses “infiltrados”, à paisana, batendo fotos, preocupa-me a irresponsabilidade de uns e outros. Podem me fotografar à vontade, não estou fazendo nada que colabore ao sensacionalismo. Aos irresponsáveis, meu conselho: pensem em atrair a gente do povo com a qual a passeata cruza, não apenas os seus companheiros de pastela e chorinho.

Me tira o sono esse misto de inocência e hormônios à flor da pele, pois há um híbrido de lobo e pastor que, em cima de trios elétricos ou debaixo de bandeiras tremulantes, enxerga uma multidão como potencial rebanho. Comemorei a atitude de um minúsculo carro de som, custeado a doações individuais, diante do Golias de um partido. O boca à boca perdurou, megafone contra altofalantes, por um minuto, sem pôr em risco a coesão mínima necessária – afinal, se o fim é o mesmo, a derrocada de um governo corrupto, partidos serão bem vindos meio aos independentes, desde que não visem cooptar seguidores (que não é o caso).

E de lembrar que o embate começou quando, sobre o verdadeiro trio elétrico, o sujeito citou sua sigla... havia aqueles que tinham a cara de pau: “esse movimento, apartidário (...)”, pondo-se no mesmo barco – é como ensinou Hegel, o aparentemente neutro é mais convincente, tem mais moral. Vi um desses no último sábado, desviando, descaradamente, o trajeto da marcha. Quando eu mais uns amigos fomos o impedir, tirando as devidas satisfações, ele alegava rumarmos para uma reunião... de quem, com que segundas intenções? Cobras criadas...

É melhor eu pular dessa pauta, senão saio do sério, e são mais úteis os conselhos que tenho para a mobilização, se se pretende a evolução para movimento. Sábado, 14 de Abril, Sábado, 21, Sábado, 5 de Maio... pra que tanto Sábado?! Numa Quarta-Feira, por exemplo, quão maior o burburim nas avenidas do centro, seria ao mesmo tempo de uma sessão na assembleia legislativa. Além de abrir os olhos do povo, o outro princípio de um movimento de tal natureza é pressionar o poder público. Adentrem as salas da Assembleia, exijam impeachment, intervenção federal.

Por fim, faço uma ressalva quanto a este artigo que encerro. Pretende-se uma análise – fortemente opinativa, não nego – a essa convulsão social autointitulada “Fora Marconi!”, não uma opinião quanto a ele ou sua gestão. Não ofereço argumentos contra, nem a favor, muito pelo contrário, como ensinou Marx, Groucho Marx. Breve estudo de caso, que não há de encerrar-se aqui, e não voz de persuasão, tampouco militância. Se você apoia, saia do conforto de sua poltrona e vá pra rua também. Se é contra, em vez de falar mal, faça o mesmo em apoio a seu governador.

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